quinta-feira, fevereiro 22, 2007

O novo ECD (Estatuto da Carreira Docente)


Está no terreno o novo ECD.

Se as motivações para a revisão do documento podem ser várias, salientam-se as de âmbito economicista.
Sem o peso negativo que, usualmente, se dá a essa designação.
Afinal, quando se gasta de mais sem efeitos positivos, aplicamos uma medida economicista, o que reduz o despesismo. O que é positivo.

O novo ECD trará, em velocidade de cruzeiro, reduções nos custos com docentes que estimamos serem significativos: 10% por via do estrangulamento no acesso aos escalões do topo da carreira, 10% no acréscimo do número de horas dos professores nas escolas e mais 10% no facto de mais cargos e funções nas Escolas serem cumpridas “sobre” as (reduções das horas lectivas) horas não lectivas dos horários (já reduzidos) dos professores titulares e não só. A tudo isso, juntam-se mais uns “trocos” com a redução da “velocidade” de progressão motivada pela introdução de alguns travões condicionantes à mesma.

Quanto à queda demográfica (menos alunos, menos professores) será compensada ou contrariada, no sentido inverso, pelo crescimento do tempo de escolarização médio dos portugueses, ainda reduzido em relação às médias europeias.

Aquela é a questão de fundo na revisão do ECD. E o motivo de “queixa” sindical.
Não está em questão a “bondade” e intencionalidade do actual ECD. Está sim a sua comparação com o anterior (e muito corporativo) documento, extremamente benéfico para os professores (mas não para o sistema educativo).

A verdade é que os professores portugueses ganham muito bem. Basta ver o gráfico comparativo (de 2006) do Eurodyce para o constatarmos.
O gráfico (em cima, clique nele para aumentar) considera o PIB de cada País, a única forma de podermos comparar salários. Traduz com realismo os valores atribuídos à função docente e o esforço que cada país faz no pagamento dos seus professores.

Coreia e México são os únicos que pagam melhor os seus docentes. Mesmo assim, com aqueles Países, seria necessário comparar outros factores (nº de dias de aulas anuais e horas lectivas dadas).

Para além disso, a verdade é que esses altos salários não têm contrapartida nos resultados educativos obtidos pelos alunos portugueses nas avaliações internacionais, a verdadeira avaliação do trabalho docente.

E não considera o facto de nos últimos 5 anos a função pública em Portugal ter sucessivamente perdido poder de compra efectivo o que significa que a situação portuguesa em 2001 era ainda mais diferenciada das restantes.

E não tem em conta, também, a situação relevante dos valores indicados (salários após 15 anos de funções) ser o fim da linha para a maioria dos professores, na maioria dos países, ao contrário de Portugal onde era (antes) uma mera passagem (para todos) a caminho de escalões e salários, ainda e significativamente, mais elevados.

Havia que fazer algo e fez-se.
A partir de agora, o acesso aos últimos escalões é rateado e bem. Passa a ser um prémio para os melhores que passarão a se esforçar mais para isso.
Os sindicatos não gostam. Mas o sistema agradece.
O topo da carreira deixa de ser o final da carreira (para todos). Passa a ser um prémio de carreira (para alguns).
Quem sai prejudicado? Os menos bons, que deixam de aceder aos tais escalões de topo. Os bons serão sempre e na mesma, promovidos. E estes, sentindo diferenças na compensação pelo seu (melhor) trabalho serão motivados para fazer mais e melhor. E, mesmo aqueles, menos bons, tratarão de melhorar para dar os seus passos, mesmo que menos compridos e mais espaçados, que os restantes.
Em oposição ao sistema anterior em que todos progridem, sem grandes problemas, ao ritmo do tempo passado. Aí, os bons tendem a deixar de o ser. Pois a única diferença é que têm mais trabalho (este cai sempre para o lado dos mais produtivos) para a mesma compensação. Não serve, pois tendem todos para a mediocridade.

Por outro lado, os professores titulares serão aqueles que acederão às tarefas de gestão. Percebe-se a medida do lado economicista: são aqueles que têm menos horas lectivas e mais horas não lectivas, a aplicar nos referidos cargos de direcção, com poupanças nas reduções de horários (completos ou mais completos, para os docentes mais novos). Mas, serão os melhores professores os mais aptos para dirigirem? Serão os mais velhos? Julgamos que não. Aí defendemos outro sentido que não o levado pelo ME: gestão profissional (gestores ou professores com formação específica em carreira própria e colocados nas escolas, por concurso) na área da gestão dos recursos, mantendo o acesso e processos actuais na área da direcção pedagógica.

Daí que, aí, defenderíamos uma solução onde cairia a noção de titularidade (concedia, aos sindicatos, de barato, a carreira única), mantendo a restrição (prémio) no acesso aos 3 últimos escalões.

No resto, o que estará mal? Talvez a avaliação. Poderá introduzir um factor de prejuízo - sério - no sistema, pois os professores estarão mais orientados para a sua avaliação, em prejuízo da qualidade do seu ensino.
Antes, apenas se preocupavam com algumas acções de formação creditadas (o que lhes assegurava a promoção) que, por vezes (não poucas), versavam temas como “O canto dos rouxinóis no 3º dia de acasalamento” ou, quando mais adaptado à realidade escolar: “Como melhor coçar a micose do dedo grande do pé do contínuo da 2ª secretária do corredor do 3º andar”.

A solução estará na simplicidade…

Haverá que criar um “estrangulamento” no acesso aos escalões superiores. Sem isso não haverá distinção nem motivação para que cada docente exerça melhor a sua função. Sem isso não haverá valorização. Não haverá distinção na compensação. Tudo ficaria com está agora. Mal. Os Bons e Muito Bons serão regra. E todos progridem…

O estrangulamento deverá ser simples. Bastaria definir que apenas progredirão X professores anualmente. Os X melhores, independentemente dos sistemas de avaliação (difíceis de implementar) indicarem que são todos BONS, MUITO BONS e EXCELENTES. Um valor (X) que será, de base, uma percentagem do número total de docentes da escola. Esse valor X, contudo, poderia ser um pouco maior ou um pouco menor em função da evolução das médias da escola nos exames nacionais. Seria premiada a Escola (e os respectivos professores candidatos à passagem de escalão), não com melhores notas, mas que mais tenha evoluído em relação à média. Aí, ao valor X acresciam-se mais uma ou duas vagas. O mesmo no sentido inverso,

Não haveria limites aos bons e muito bons (e os sindicatos perderiam um dos seus cavalos de batalha), mas tão só progrediam na carreira esses X melhores.
O valor X, de base, a calcular (por exemplo, simplificado, 2/3 de 1/5 da dimensão dos quadros docentes se a progressão se faz de 5 em 5 anos), asseguraria que, em média, 2/3 dos docentes chegariam ao actual escalão máximo (professor) e que apenas 1/3 atingiriam escalões superiores (seria atingido, também, o objectivo economicista).

Afinal, não acedem a Medicina (exemplo comparativo) todos os alunos que completam o 12º ano e obtêm uma média de acesso Muito Bom. Apenas os Y melhores, em função das vagas existentes.

Mas, mesmo assim, é preciso classificar os docentes e, mais importante, ordena-los.
Em primeiro lugar seriam excluídos todos os que não tivessem atingido determinadas condições (tivessem progredido há menos de 5 anos, não estar na escola em funções docentes há 3 ou mais anos, níveis de assiduidade mínima não atingidos…). Depois, as Escolas avaliariam “descomplicadamente” os professores candidatáveis e candidatos e juntava-se uma componente que valorizasse (não muito, mas dando peso ao factor “espera”) os docentes em condições de progressão, mas não promovidos nos últimos anos (por falta de quota). Progrediam, nesse ano, os primeiros X.

Outra nota negativa: mantêm-se “no cinzento” as funções e obrigações docentes nos períodos de interrupção da actividade lectiva. O ME recuou nas versões sucessivas das suas propostas e tudo ficou (quase) na mesma. Se há interrupção lectiva, as horas de trabalho devido (35 horas semanais) são exercidas? Como actividades não lectivas?

É certo que caiu a referência à possibilidade das direcções escolares poderem dispensar docentes “desnecessários” nesses períodos. Agora, refere-se que essas direcções elaboram plano de trabalho (e não planos de dispensa). Melhorou, mas ficou tudo muito dependente da noção de “necessidade” das direcções escolares. Eleitas pelos docentes…

Porque, nessas alturas (ironizando) não há nada a fazer nas Escolas. Daí se dispensarem os professores. Afinal nas nossas escolas há pouco a fazer. As escolas e os alunos são dos melhores do Mundo…

Dado este passo, fundamental, temos que passar a outras fases, de efectiva melhoria do sistema de ensino. Pois a mexida no ECD era fundamental para os processos seguintes mas, não era, ela mesmo, factor de melhoria.

Pois avancemos. Agora, para a profissionalização da Gestão

2 comentários:

Mário disse...

Começo por dizer que não sou professor, não pertenço a nenhum sindicato. Posto isto tenho a liberdade de afirmar que existe alguma, senão muita, demagogia e erros de raciocínio logo no início do texto.
Os professores com 15 anos de carreira, comparativamente, ganham muito bem segundo o quadro da Eurodyce.
E esta é a vossa base para concluir que se deve ir para uma gestão profissional nas escolas?
O meu intelecto não consegue alcançar tanta lucidez de espirito e raciocínio. Já agora qualquer gestor deverá ter dois anos probatórios em que terá de passar por todos os serviços da escola, incluindo ser professor.

日月神教-任我行 disse...
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