segunda-feira, março 08, 2010

Fim às ETIs e Escolas-armazéns?

Por qualquer razão, talvez por intervenções das Associação de Pais, voltam ao de cima (através de blogs e e-mails) alguns textos de opinião sobre (e contra) as ETIs.

Nomeadamente, são sustento dessas opiniões dois textos de Março e Abril de 2009 do Professor Joaquim Azevedo e do Dr. Daniel Sampaio.
Considero os textos exagerados.
Até demagógicos e mal direccionados.
A ETI é um bem e um bem necessário. Mesmo que por más razões de organização social. Talvez por haver óbvios excedentes na diferença entre as expectativas e as realidades da nossa população. Todos acham ganhar pouco e querer (muito) mais. Ninguém acha poder prescindir de uma parte do rendimento para ganhar algum tempo para si e para os seus. Outros, e isso é mais grave, pura e simplesmente têm que se sujeitar ao que lhes oferecem para poderem ter algum rendimento.

Não vejo qualquer problema que as crianças estejam bem enquadradas, por educadores ou outros técnicos habilitados, no local onde frequentam a Escola.

Vejamos:

Esqueçam a ideia de “Escola” como um edifício.
A “Escola” é o que os pedagogos e os “eduqueses” (os que promovem o eduquês) quiserem. No tempo que entenderem correcto. Decidam, mas não andem (o que é costume) aos zigue-zagues constantes.

O Pólo Educativo será um conjunto de instalações físicas, geridas por uma qualquer entidade e por quaisquer gestores. Não forçosamente (e de preferência não) docentes (estes geriam a "Escola" que tem uma vertente pedagógica) Nesse Polo desenvolvem-se as actividades escolares e… outras quaisquer, nos períodos extra.

Porque quererão os “donos da Escola” se apropriar dos espaços para além do tempo que lhes cabe?

Esses espaços, do Pólo Educativo serão – também - da Escola. Para cumprirem o seu papel. Mas serão da comunidade para suprir outras necessidades nos tempos e períodos sobrantes. Porque não?

Não por 24 horas, mas certamente por 8, por 10 ou, até 12h. Porque não adiantará em nada fechar o Pólo Educativo quando acaba a Escola para assegurar o que os srs. professor e psicólogo defendem (e que todos defenderíamos como um qualquer objectivo lapalaciano): que as crianças ficassem mais tempo com as suas famílias. Ora as famílias não estarão lá…

Assim, logo floresceriam os ATLs manhosos num qualquer rés-do-chão perto das escolas onde os senhores professores se amanharão com mais algum rendimento extra (pago pelas famílias que não estão…) pelo trabalho ali exercido, na sua componente não lectiva (e já pago pela escola, mas durante o qual o srs. professores fazem o que quer).

A Escola não tem que crescer. Por mim até teria que diminuir. Mas aí, logo viriam os sindicatos combater o menos emprego docente resultante da medida. Ou sejam, as verdadeiras razões que fazem com que a Escola em Portugal seja, para os alunos, uma verdadeira cruz…

Não é a ETI (e o que esta traz, para além das actividades Escolares – chamemos-lhe assim) que está mal. O que está mal é mesmo a Escola, com actividades curriculares obrigatórias exageradas (pelo menos a partir do 2º Ciclo).

A ETI é um bem e bem vinda. Experimentem perguntar às famílias (cujos pais ou um deles não seja professor) qual a sua importância…

Por mim só faltará clarificar aquele facto: quando a Escola termina, começam outras coisas. Os “senhores da Escola” podem se ir embora, mas não queiram deixar os espaços fechados a cadeado e os menimos à porta. Estes espaços são da comunidade e aí deverão ser desenvolvidas as actividades necessárias a essa comunidade. Por docentes (irão logo perceber o potêncial de emprego que ali se cria) ou por outros elementos de enquadramento quaisquer.

E, até que a sociedade possa ser diferente (e garantir que as famílias possam trabalhar menos) essas actividades são fundamentais e incontornáveis.

Daí que ser contra a ETI ou contra a escola-armazém (esta designação é nitidamente mal-intencionada) é uma posição cómoda e demagógica. Que sejam contra as razões que tornam necessárias as ETIs e as Escolas que funcionam em horários alargados. Mas contra estas? É querer matar o mensageiro só porque nos faz chegar más notícias…

Infelizmente, a nossa sociedade não está preparada para reduzir o tempo de trabalho de cada um. Porque ninguém prescinde (acha que não pode prescindir) da percentagem de redução no rendimento correspondente. E, trabalhar menos para receber o mesmo é coisa IMPOSSÍVEL em Portugal, num momento em que vivemos 20% acima das nossas possibilidades, muito à conta de apoios sociais de sustentabilidade impossível, à conta de endividamento galopante que terá, certamente um fim. Um fim que terá consequências e que não serão, certamente, menos trabalho e menos exigência. Daí que este apoio às famílias está para durar e para crescer por razões que se prendem na sua incontornável necessidade.

Podíamos gostar mais de outra sociedade. Mais rica e sem endividamento porque produziria o que consumia. E onde todos poderiam trabalhar 6 horas por dia. E que em vez de 3 horas, os pais ficassem 5 horas com os filhos. Será que ficariam? E que as ETIs e as Escolas com horários alargados ficariam vazias. Não por imposição, nem por decreto, mas porque não seriam necessárias, nesses termos.

Mas não é assim e não será assim por muito tempo. Não porque se desista de lutar por isso. Mas porque o Mundo não está para esses idealismos. Há muitos chineses a trabalhar muito para subir o seu nível de vida. E esse facto fará com que nós, muito acima deles (nesse aspecto) tenhamos que gerir cortes que serão graduais, sucessivos e incontornáveis no nosso nível de vida. Que ao contrário do que julgamos, não é tão “curto” como ajuizamos. Porque temos que nos comparar com todo o Mundo e não apenas com os alemães…

Perante isto, teremos que combater os efeitos negativos da situação, mas não contra as ETIs. Mas sim COM as ETIs. Pois elas estão lá para isso. Mudemos o que está mal nas ETIs (podemos mudar tudo), mas não adianta fechar os espaços, para resolver a questão social do trabalho em tempo exagerado (principalmente agora que conviria distribuí-lo pelos cada vez mais desempregados). É que não resolveria nada e só criaria mais problemas.

Quanto ao tempo de funcionamento do Pólo Educativo, será, no mínimo 8 horas, sendo as 10h o mais razoável. Mas podendo ir mais longe. Sem quaisquer obrigatoriedades em tudo o que aconteça para além do período Escolar…

Para além das 11 horas (7h30-18h30) até posso ser céptico e ficar preocupado (como os srs. professor e psicólogo) mas não me coloco no lugar da mãe solteira que está na caixa registadora de um qualquer supermercado a que acorremos às 21h30 e que nos dá jeito que esteja lá. Que precisa daquele emprego pois não encontra outro.
Que até pode ter uma licenciatura. Que até podia ser professora.
Mas que tem o acesso a essa sua profissão limitada pelas gerações mais velhas, rigidamente “presas” ao seu emprego garantido (são quase todos - 99,5% - bons ou acima disso), com topo de carreira assegurado e muito bem pago.

E essa mãe, caixa num supermercado, tem o direito de perguntar porque querem os senhores professores fechar os edifícios, onde o filho frequenta a escola, às 15h30. E gostaria - deixem-lhe essa liberdade de - questionar porque será filha de um deus menor no que respeita à forma como pode gerir a sua vida e, mesmo assim, ter e tratar do seu filho.

Daí que, E24 é demagogia demais que só pode cair bem a quem está no local de trabalho 12 horas por semana e que, por isso, até pode estar ou ajudar os filhos, com os netos. Desses, não podemos esperar mais do que o comodismo a que se habituaram, até quando vão ao supermercado quando lhes apetece e encontram lá (mas nem reparam) quem os esteja a servir.

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